Canção do silêncio

não digas nada
é assim que dizes melhor

luto com as sombras meço no passado
o que foi teu
o que foi meu

o que ficou dentro de mim mesmo
e não sai
e não vai para ti

não digo nada
é assim que digo melhor

Rui Tinoco

Este poema «Canção do silêncio» de Rui Tinoco saiu com erro de paginação na DiVersos nº32: deveria estar todo ao alto da página 142, título incluído. Por erro, o título vem como última linha da página 141. Ao autor, as desculpas do editor.

De cor

Entregas-te a essa terra musical
E enterras a semente que dá cor
De cor
Como se de frutos fosse feita a sementeira alheia

Comes o olvido e a memória na mesma refeição

Pões cuidados e cetins no teu enorme rio
A nadar a tua sobrevida

A solidão
Não te traz nem ritmo nem sentido aos dias
E a noite
É o lugar blindado da cegueira

Onde vai agora a pressa que já não se vê o tempo?

E se fosse apenas essa a mácula parasita, haveria ainda jarros e violetas, e pássaros em redor?

Cláudia Oliveira

Este poema «De cor» de Cláudia Oliveira saiu com erro de paginação na DiVersos nº32, aqui na forma correta em que deveria ter sido paginado nas páginas 33-34. Forma um só poema com o que aparece na página 34 como se fosse um poema separado com o título «A solidão». À autora, as desculpas do editor.

DiVersos nº32

Vinte e cinco anos, um quarto de século, são quantos comemora a DiVersos – Poesia e Tradução com este número 32, a sair em junho de 2021 – e esperamos comemorar ainda com o próximo, que prevemos para o outono de 2021. Isso quer dizer que, não obstante um ou outro período de dois ou três anos em que esta série não periódica se não publicou, em média editámos pouco mais de um número por ano. Esse vagar da nossa marcha – bem conhecido dos nossos assinantes e colaboradores – tem permitido no entanto agregar, em volta de uma publicação modesta e austera, um núcleo persistente de leitores, autores e tradutores, e de ir ampliando, não só o número de páginas, também o número de línguas representadas, e mesmo o número de «alfabetos», como com esta 32.ª edição se torna mais percetível. Sabemos que grande parte de nós leitores – a começar pelo editor –, de alguns desses alfabetos apenas poderemos considerar o seu aspeto visual e estético. Mas é o suficiente para dar algum contributo à contemplação da variedade não só das línguas mas também das representações visuais destas, e ao apreço pela dignidade, valor e respeito por todas elas.

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DiVersos nº30/31

Um número de homenagens na DiVersos (mas todos o são), este número duplo 30-31. Todos o são, porque o espírito humano não distingue, essencialmente, entre mortos e vivos. Nele, essencialmente, todos são vivos. Não obstante, é uma homenagem com carinho especial a que fazemos a Manuel Resende e a António Fournier. De gratidão pelo que representam na biografia da DiVersos. Manuel Resende: foi dele a ideia de criar esta série. Foi ele quem lhe deu o nome – e a latitude e abertura fora de qualquer espírito de capela ou de escola. António Fournier: um tradutor que veio ter connosco trazendo consigo a Itália e a Madeira, e nos deixou a saudade da sua grande generosidade e delicadeza. Homenagear é comemorar e recordar. Por coincidências múltiplas, este número recorda, aproveitando a convencionalidade das datas, um grande vulto do século XVIII, Hölderlin, e outro grande do século XIX, Herman Melville. Mas também uma poetisa grega falecida neste mesmo ano de 2020, Kiki Dimoulá, e uma poetisa portuguesa falecida em 2016, Maria Amélia Neto, cuja inexplicável obscuridade despertou o nosso inconformismo e a esperança de contribuir para a trazer à claridade que deve ser a dela.

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DiVersos nº29

Ao vigésimo terceiro ano de publicação da DiVersos, neste n.º 29 incluem-se vinte poetas, oito dos quais em tradução. Desde o número 16 optámos sempre que possível por incluir os poemas traduzidos precedidos do texto na língua original, no sistema face-a-face: à esquerda, em página par, o original; à direita, em página ímpar, a versão em português. Hoje, pela primeira vez em dois autores traduzidos, há uma terceira língua, intermédia, ou de transmissão, pelo que, para esses casos, optámos por uma apresentação em sequência, e não face-a-face, que se tornaria impraticável. Em Adam Zagajewski, surge primeiro o texto da versão portuguesa, em tradução de Francisco J. C. de Carvalho, em seguida a versão em castelhano, que serviu de correia de transmissão, e, finalmente, o original polaco. Em Stefano Marino, vem, à cabeça, o original em regino – para todos os efeitos uma língua em si, mais do que um dialeto, como vulgarmente se lhe chama, se considerarmos critérios propriamente linguísticos mais do que políticos, como nas línguas oficiais dos Estados. E em seguida, em tradução do próprio autor, a versão em italiano, seguida por fim da versão em português de António Fournier.

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DiVersos nº28

A Ana Elisa Ribeiro um agradecimento especial

No poema «hoje acordei» (na página 147 desta antologia), Micheliny Verunschk termina assim um dos poemas do seu livro A cozinha de Buda:
mas é que hoje acordei
com a chuva chiando
na panela de tudo
Ao deparar com o último verso citado, pareceu-me que ele se ajustava bem ao que é esta antologia. Nela se reúnem 71 poetas do Brasil presentes na iniciativa Leve um Livro, que Ana Elisa Ribeiro nos apresenta três páginas adiante. Com Bruno Brum, Ana Elisa editou essa série ao longo de três «temporadas», 2015, 2016 e 2017. Se tivesse sido possível continuar, muitos outros poetas do Brasil, segundo ela, teriam dado origem a outras «temporadas», o que não está definitivamente ausente do campo dos possíveis. O título desta nota editorial, pedido de empréstimo a Micheliny Verunschk, dá bem ideia da plasticidade proteica do material poético aqui agrupado. Nesta antologia ferve, numa excelente sopa, uma enorme variedade de temas, referências culturais, sentidos e sentimentos. Não há aqui qualquer «mesmice», nenhuma monotonia de repetição de um mesmo estilo, maneira ou maneirismo, de assunto ou de ausência dele, mesmice que por vezes afeta a poesia de determinadas épocas em determinadas literaturas.

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DiVersos nº27

Em memória de Carlos Felipe Moisés

Pela primeira vez em mais de vinte anos, um dos colaboradores de um número da DiVersos morre em pleno período de preparação desse número – neste caso o nº27. Carlos Felipe Moisés chegou até nós – tal como, também neste número, Renata Pallotini –, pela mão amiga de Elisa Andrade Buzzo, ela própria aqui presente com alguns poemas do seu livro Notas errantes. Carlos Felipe Moisés não chegou a ver a DiVersos com a sua miniantologia, a que o convidámos, e que ele próprio selecionou e organizou. As mensagens que a propósito dela trocámos entre maio e julho de 2017 revelaram bem que estávamos perante pessoa extremamente gentil e afável. Em meados de agosto enviámos-lhe essa miniantologia em prova digital, para que a verificasse. Ignorávamos que não iríamos ter resposta – Carlos Felipe Moisés falecera por aqueles dias. Foi para nós um choque – como sabemos que o foi para os seus próximos, para os amigos e muitos que o admiravam como escritor, como poeta e como pessoa.

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DiVersos nº26

Ao fim de vinte anos, a DiVersos consagra pela primeira vez um número inteiro a uma só literatura, a poetas de uma só ou principal pertença geográfica – mas não de uma só língua. Este número especial é dedicado a Dez Poetas de Cabo Verde. Dois deles, João Vário e Mário Fonseca, estão representados por poemas ecritos originariamente em francês e aqui traduzidos para português – se bem que a poesia de João Vário tenha sido escrita sobretudo em português, ao passo que a de Mário Fonseca o foi principalmente em francês. Outros, como José Luís Hopffer C. Almada, sob o nome de Ezeami di Sant’y Águ, e Kaká Barboza, estão aqui também representados, para além de poesia escrita em português, por poemas escritos na língua cabo-verdiana, a língua nacional de Cabo Verde, acompanhados de tradução para português. Quanto a António de Névada, Filinto Elísio, Jorge Carlos Fonseca, José Luiz Tavares, Mário Lúcio Sousa e Vasco Martins surgem neste volume com poemas em português. Todos eles, e ainda José Luís Hopffer C. Almada e Kaká Barboza, tiveram a extrema gentileza de aceder ao nosso pedido de cederem inéditos seus para este número da DiVersos.

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