Intimidade – Caminhos Obscuros e Caminhos Luminosos nas Relações de Amor e Intimidade

O intercâmbio quotidiano no interior do casal, entre pais e filhos, entre amigos ou entre colegas, é um terreno fértil para a irrupção de relações doentias (com base em estratagemas ou na simbiose). Continuamente, e de modo muitas vezes inconsciente, somos tentados a arrastar para esse terreno os nossos semelhantes. Continuamente também, temos que nos defender e resistir às tentativas por eles feitas para nos arrastarem para lá. É por isso importante desenvolver ao máximo uma intuição e uma atenção vigilantes que nos permitam detectar a tempo os convites ao jogo neurótico que circulam entre os que nos rodeiam, e os que dirigimos aos outros sem nos darmos conta.

Autor: Patrick Traube
Páginas: 88
Preço: 8€
Ano de edição: 2004
ISBN: 972-8870-00-0
Coleção: Pessoal Transmissível

Cada dia que passa confirma esse diagnóstico: no coração de  cada um de nós escancara-se um hiato, um fosso profundo entre, por um lado, uma inteligência técnica hiper-evoluída, capaz das mais inverosímeis proezas (após ter conquistado a lua, o homem já está hoje a sondar Marte e Júpiter) e por outro lado uma inteligência emocional em pousio, abandonada aos ventos, titubeando ao longo de temíveis precipícios. Aprendemos a resolver as equações matemáticas mais complexas, a construir computadores sofisticados, a prever o tempo para amanhã. Ao mesmo tempo, sentimo-nos imensamente desamparados e miseráveis, desarmados frente às experiências emocionais e aos sobressaltos dos sentimentos. Assemelhamo-nos aos Construtores de Impérios, a edificar impérios intelectuais sobre areias movediças afectivas.

Esse desenvolvimento divergente dos nossos cérebros gera e mantém em cada um de nós uma brecha escancarada e profunda. Aqueles que sofrem no seu ser (e aqueles que têm como profissão escutar esse sofrimento) estão sem dúvida especialmente bem colocados para observar a sua insondável profundidade a ponto de sentirem vertigens. Será o mal-estar afectivo a nossa doença endémica, a nossa maldição, a nossa tara original ou simplesmente o preço a pagar ao super-desenvolvimento do intelecto? Sofremos de carência de amor ou antes não atribuímos às coisas do coração o lugar que lhes cabe?  Ambas as coisas são ao mesmo tempo verdadeiras e falsas!

Na realidade, encontramo-nos em pleno diante de um paradoxo estranho. Basta abrirmos os olhos e observarmos em nossa volta, escutarmos o eco das cidades humanas, para nos apercebermos que o amor está presente em toda a parte, em grande quantidade e numa série de diferentes formas. A prova disso? O êxito garantido  dos filmes de amor, dos romances de amor, das canções de amor. A flor é sempre muito azul e o romance é um «sector promissor» que encabeça todas as listas de êxitos mais vendidos. Nada de surpreendente nisso! Não são o amor e a felicidade as aspirações mais profundamente enraizadas em cada um e em cada uma de nós?

Não, não sofremos por não amar ou por não amar suficientemente. Sofremos antes por amar mal, desajeitadamente, caoticamente. Sofremos,  diz Edgar Morin, de amor transviado, enganado, enganador. E acrescenta Morin:

«As fantásticas enxurradas de amor que vão perder-se nos céus vazios ou alimentar as nuvens mortais só poderão trazer fecundidade à nossa vida se o amor se tornar inteligente, isto é, capaz  de detectar a ilusão e o erro».

Aquilo de que sofremos não é tanto de escassez de amor mas de hemorragia de amor. Por isso, o que precisamos de aprender não é  simplesmente a virar as coisas do avesso, a renegar a razão em nome do coração (o que seria a mesma coisa que substituir uma amputação por outra). Devemos aprender, sim, a romper com a prevalência exclusivista de uma dimensão única, a reconciliar os nossos dois «cérebros»,  a operar a sutura coração-razão, a deitar abaixo as  separações estanques e a integrar os respectivos recursos. O que temos que aprender, não é a amar mais, mas a amar melhor. O que temos que aprender é a inteligência do coração. Ou ainda, a arte simultânea do coração inteligente e da razão amante.
Patrick Traube

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